10 livros clássicos para você se apaixonar por literatura brasileira durante a quarentena

Durante nossos anos de colégio somos obrigados a ler livros que fora de seu contexto parecem chatos e desinteressantes, principalmente para um adolescente, sejamos honestos. Estes livros nos são apresentados como clássicos da literatura brasileira, mas nos custa muito entender a real importância de lê-los...

Compartilhe esse Post

Durante nossos anos de colégio somos obrigados a ler livros que fora de seu contexto parecem chatos e desinteressantes, principalmente para um adolescente, sejamos honestos. Estes livros nos são apresentados como clássicos da literatura brasileira, mas nos custa muito entender a real importância de lê-los.

Quando adultos podemos nos interessar mais por ler, mas geralmente guardamos um certo trauma (ops, perdão psicólogos), quer dizer, rancor, dos clássicos.

Como muita gente eu tinha esse rancor, mas ao decidir prestar um vestibular diferente acabei me surpreendendo adorando alguns clássicos brasileiros!

Trago alguns aqui, resenhados de maneira totalmente subjetiva, para quem sabe despertar por aí também esse novo amor pela literatura ‘antiga’ (e tem um bônus atualíssimo!).

Desculpo-me antecipadamente por não incluir mais autoras e mais diversidade na lista, porém sabemos que quando falamos de literatura, ainda mais a literatura clássica, não é fácil encontrar vozes diversas, infelizmente. Contudo, sigamos atentos: há muita boa literatura disponível atualmente e há o grande campo onde soam as mais dissonantes vozes (antigas e atuais): a internet!

No final do texto você encontra links para download gratuito dos clássicos indicados. 😉

Boa Leitura!

Clássico 1 – Capitães de Areia, Jorge Amado (1937)

Esse livro de pouco mais de 300 páginas nos transporta para a vida de um grupo de meninos que vivem debaixo de um trapiche abandonado em Salvador – em um mundo demasiado cruel e injusto para ser totalmente compreendido por eles, ou compreensivo com eles. Esses meninos carecem de instrução e principalmente de afeto.

O livro foi escrito em um momento de ascensão de uma consciência de classe. Temos cenas fortes, com conteúdo mais explícito e retratos da a violência do Estado e da vida como ela é. Mas também tem cenas engraçadas neste livro cujo verdadeiro protagonista é a amizade forte e o senso de família criado por Pedro Bala e seus amigos, o bando dos ‘Capitães de Areia’.

Clássico 2 – Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis (1881)

Sim, vou indicar um livro escrito dois séculos atrás! Machado de Assis tem uma escrita ao mesmo tempo densa e divertida. O livro é muito irônico! A expressão correta seria dizer que esse livro é uma comédia trágica (ou tragédia cômica). Nele, conhecemos Brás Cubas, o narrador que conta sua vida a partir de sua morte, isto mesmo: o narrador está morto!

Com uma dedicatória hilária (ele dedica o livro ao primeiro verme que comeu a sua carne) já entendemos um pouco do quem vem pela frente. Apesar de ter sido escrito há tantos anos o livro parece moderno, pois o narrador se dirige diretamente aos leitores contando em detalhes (e julgando) tudo sobre a sua vida: seus amores – e desamores, amigos, familiares e sua vida comum, mas nada ordinária. Um verdadeiro mergulho na mente de um homem tão comum quanto perturbado.

Vale muito a leitura!

Clássico 3 – O Quarto do Despejo, Carolina Maria de Jesus (1960)

Encontramos nesta obra o retrato cru das favelas em São Paulo na década de 60, a realidade vivida pela autora. O relato escrito com intrínseca e cortante verdade nos leva para a realidade de uma favela em que preconceitos e machismo imperam, porém lemos também sutilezas e pequenas alegrias na vida da autora, que registrou tudo no formato de diário.

Maria Carolina de Jesus é considerada uma pioneira na escrita por ser negra, mulher e periférica.  Ela foi autodidata (frequentou apenas alguns anos na escola, o suficiente para aprender a ler e escrever), tinha 3 filhos e nunca se casou (pois não desejava nenhum homem controlando sua vida).

Com certeza uma voz que poucas vezes é ouvida no Brasil, mesmo nos dias de hoje. O livro foi traduzido para mais de 10 idiomas e em sua primeira tiragem (de 10 mil exemplares) esgotou em apenas uma semana. Por ser um relato fiel e em formato de diário o livro é considerado uma obra de literatura documental.

Leitura fundamental!

Clássico 4 – O Sentimento do Mundo, Carlos Drummond de Andrade (1940)

Drummond tem uma obra muito extensa e eu sou apaixonada por ele, então poderia indicar qualquer um de seus livros, mas decidi indicar Sentimento do Mundo pois foi o primeiro livro dele que eu li. Logo no primeiro poema me vi encantada pela magia de suas palavras.

O autor tem uma solidão em seus textos que nos toca fundo, na alma. Alguns estudiosos dizem que a obra dele se concentra em três fases, todas implicando a relação do “eu versus o mundo”, seriam elas: eu maior que o mundo, eu menor que o mundo, eu igual ao mundo.

A obra de Drummond então engloba diferentes fases de descobertas do autor em que ele confronta sua própria identidade, seu eu frente ao mundo – num olhar mais social e questionador e sua verdadeira essência, em sua fase mais filosófica e metafísica.

Mesmo que você não seja fã de poesia, dê uma chance ao Carlos e seja também um gauche* na vida.

*(expressão retirada do francês e utilizada pelo autor num de seus poemas mais conhecidos: Poema de Sete Faces, que significa literalmente ‘esquerda’, mas tem sentido de ‘errado’, ‘torto’, ‘diferente’, ‘único’)

Clássico 5 – Antologia Poética, Vinicius de Moraes (1954)

Essa coletânea de poemas de Vinícius de Moraes reúne grandes poemas como ‘Ausência’ e ‘Rosa de Hiroshima’. Vinícius era um grande compositor e cantor, mas sua essência era mesmo de poeta, ou “poetinha” como ele dizia.

Recomendo esse livro pois ele é uma coletânea dos melhores poemas do autor e por ele podemos conhecer as notas do coração desse grande compositor de amores (uma curiosidade: Vinícius se casou 9 vezes!).

É para aqueles dias em que algo leve e romântico te carrega para além das lembranças.

Como uma romântica incorrigível eu decididamente recomendo essa viagem de amor e contemplação que são os poemas do nosso autor mais bossa-nova.

Clássico 6 – Os Sertões, Euclides da Cunha (1902)

É impossível fazer uma lista de clássicos da literatura brasileira e não colocar ‘Os Sertões’. Esse livro retrata a Guerra de Canudos (1896-97) liderada por Antônio Conselheiro e se trata de um relato histórico, ainda que considerado literatura, pois o autor foi convidado por um jornal para cobrir os acontecimentos e seus escritos se tornaram essa obra.

Para quem gosta de algo mais realista e com um ritmo mais rápido do que a literatura clássica, esse livro foi responsável por descaracterizar o ufanismo da época, atribuído aos autores românticos que idealizavam personagens como heróis.

Clássico 7 – Macunaíma, Mário de Andrade (1938)

Mais um livro que é difícil não ter em lista de clássicos brasileiros. Confesso que ao ler a primeira vez esse livro, ainda em idade escolar, eu fiquei perturbada. Não entendi nada e passei a refutá-lo. Foi apenas com mais de 30 anos que reli o texto, ainda considerando-o bastante surreal.

A história do anti-herói Macunaíma nos prende do início ao fim pois é uma viagem pelo folclore brasileiro e outras invencionices. Macunaíma é filho da noite e nasceu numa tribo amazônica. Ele possui uma pedra que ele guarda como lembrança da mulher que ele se apaixonou. Por uma série de circunstâncias ele acaba perdendo a pedra e tem que ir recuperá-la em São Paulo e esse livro é a sua jornada para recuperar essa pedra.

Contudo o livro é uma imensidão de personagens estranhos, passagens não lineares no tempo e coisas tão estranhas quanto a personagem principal que morre mais de uma vez na história. Em resumo Macunaíma é a essência da literatura fantástica brasileira! Tem que ler com a mente bem aberta e entender que o que lemos é algo simbólico.

O livro também é cheio de gírias, neologismos (palavras inventadas) e linguagem oral. Então nada que “ai que preguiça!” e vamos quebrar a cabeça com essa obra-prima da fase mais radical do Modernismo brasileiro.

Clássico 8 – A paixão segundo G.H., Clarice Lispector (1964)

Bom, tecnicamente estou roubando um pouco aqui já que a Clarice não é uma autora nata brasileira e sim Ucraniana, porém ela foi naturalizada, então pode né? 

Ela veio para o Brasil em 1922 com sua família. Morou parte da sua vida em Maceió e Recife, mudando-se para o Rio de Janeiro após a morte da mãe. Apesar de ter estudado Direito, Clarice se firmou como cronista e ensaísta, escrevendo para grandes jornais. Suas obras são extremamente pessoais e geralmente retratam algum momento de epifania de um personagem, em meio a acontecimentos ordinários.

Escolhi o livro Paixão Segundo G.H. pois é meu favorito, tem um viés totalmente filosófico e, ao mesmo tempo, você tem a sensação de se identificar com tudo que a personagem diz.

Impossível não elogiar essa história que se torna um quebra-cabeças da mente de uma mulher que, ao matar uma barata, começa a repensar a própria existência.

Clássico 9 – As meninas, Lygia Fagundes Telles (1973)

A autora de ‘Ciranda de Pedra’ entrega um livro muito forte e denso, apesar de não muito longo, sobre a história de três amigas (as meninas do título) que moram no mesmo pensionato mas têm personalidades e histórias de vida bem distintas.

A história se passa na ditadura militar e o livro foi publicado em meio à ditadura, no mesmo ano do AI-5, ato que instituiu censura pesada às artes. A única explicação possível para esse livro ter “passado” na censura é que o seu título e sinopse não entregam de cara que o livro será crítico.

O livro usa a técnica do “fluxo de consciência”, na qual somos inseridos dentro da mente dos personagens e pode parecer confuso no início, mas ao entender as características de cada personagem conseguimos identificar quem está nos conduzindo pela leitura e entramos de vez na história.

A autora tem outros livros incríveis como ‘Ciranda de Pedra’, mas para mim essa foi sua obra-prima, sem dúvidas. Infelizmente não encontrei nenhuma versão confiável do livro em PDF, porém tem algumas versões gratuitas circulando pela internet.

Clássico 10 – A viagem, Cecília Meireles, 1937

A autora foi grande entusiasta da literatura infantil, e inclusive foi fundadora da primeira biblioteca infantil do país. Em seu livro que a levou a ser conhecida como poetisa, a autora traz 99 poemas, sendo alguns Epigramas (poemas curtos e satíricos).

Com esse livro Cecília conseguiu ser reconhecida e receber um prêmio da Academia Brasileira de Letras, sendo ele uma bela compilação para se iniciar na obra da autora.

Bônus – O amanhã não está à venda, Ailton Krenak (2020)

Ensaio recente do Ailton Krenak, líder indígena da etnia Krenak, que explora de maneira simples e curta, mas com extrema sabedoria, os rumos da sociedade nos próximos anos. Em apenas 25 páginas o texto nos convida a questionar o novo normal a partir da pandemia que estamos vivendo hoje por conta do coronavírus.

Texto absolutamente necessário para quem pretende repensar o futuro olhando os erros do presente.

Bônus 2

Muitas editoras estão liberando conteúdos e livros inteiros gratuitamente para tornar a quarentena mais prazerosa. Tem dos clássicos aos contemporâneos.

É só escrever na busca do seu navegador: “livros grátis + quarentena” e ser feliz!

por: Camila Zorlini


Camila Zorlini é formada em tradução e ciências sociais, atua como pesquisadora de mercado há sete anos e tem interesse em diversas áreas como artes, filosofia e educação, mas sua grande paixão é escrever. Adora contar causos e inventar contos. Escreve nas horas vagas. É fã de feminismo, sonecas depois do almoço e poemas escritos em pequenos pedaços de papel.

Baixe gratuitamente os clássicos indicados:

  1. Capitães de Areia, Jorge Amado (1937)
  2. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis (1881)
  3. O Quarto do Despejo, Carolina Maria de Jesus (1960)
  4. O Sentimento do Mundo, Carlos Drummond de Andrade (1940)
  5. Antologia Poética, Vinicius de Moraes (1954)
  6. Os Sertões, Euclides da Cunha (1902)
  7. Macunaíma, Mário de Andrade (1938)
  8. A paixão segundo G.H., Clarice Lispector (1964)
  9. As meninas, Lygia Fagundes Telles (1973) *
  10. A viagem, Cecília Meireles, 1937
  11. Bônus – O amanhã não está à venda, Ailton Krenak (2020)

 

0 0 votes
Avaliação
Subscribe
Notify of
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários

Mais artigos

INSCRIÇÃO

OFERTA VÁLIDA POR TEMPO LIMITADO