A Transitoriedade da Morte e a Clínica Psicanalítica

 

O tempo sempre foi um assunto muito caro à psicanálise. O tempo enquanto uma possibilidade de tratamento, enquanto algo que custa caro e que marca o imperativo do final da vida.

Freud em “Projeto para uma psicologia científica” (1895) se depara com a atemporalidade do inconsciente. Ali, em seus primeiros esboços para uma psicanálise, ele começa a entender que o tempo cronológico e o tempo do aparelho psíquico funcionam de modos diferentes.

É no caso Emma Eckstein, Anna O. e em seus Estudos sobre Histeria (1895) que Freud consolida o “um só depois” (Nachträglichkeit). O autor vai nos mostrar que as cenas traumáticas, os eventos em si, não vem carregados de significados por si só. Mas que tais eventos ganham um valor de significação, de representação, com as coisas que vierem a acontecer posteriormente.

A concepção de que seria preciso olhar não somente o momento do trauma, mas o que veio em sequência, vai dando suporte para a formulação do texto “O inconsciente” de 1915. Onde Freud já está muito mais certo sobre o aspecto atemporal do inconsciente.  Sendo assim, a associação livre (“fale-me o que lhe vier à cabeça, sem restrições”) somado a um inconsciente que opera por um tempo próprio permite escutar menos a história em si, a fala do trauma, mas as representações que aparecem na história contada.

Já em “O homem dos lobos: História De Uma Neurose Infantil” (1918 [1914]) Freud faz sua primeira intervenção no tempo das sessões. Ao ver que o paciente não avançava mais em análise, esse estipula um limite para o tratamento. Ao comunicar isso ao paciente, é notado uma considerável melhora.

Ao longo da obra de Sigmund Freud é possível verificar como o tempo cronológico deixa de ter o estatuto de tempo supremo. O autor formula sobre uma série de textos que tem em sua gênese a interação entre eventos do “passado” no “presente”, tal como o complexo de Édipo. E já no terceiro momento de suas obras, o texto “Mal-estar na civilização” (1930) vem a argumentar sobre a impossibilidade da barganha com a morte. Não importando os avanços científicos e tão pouco o que se faça, a morte é a linha final da existência. E que essa pôde-se apresentar a qualquer momento.

Já no final de sua vida e obra, Freud lança “Análise terminável e interminável” (1937) para argumentar do tempo atemporal de análise, dos objetivos de uma análise e como o trabalho analítico pode ser vasto, mas que deve ter sobretudo o objetivo de um “bem estar” do sujeito: um ponto no qual esse pode usufruir da vida, onde a pulsão de vida é maior do que a de morte e o sujeito pode circular e viver.

Já em Jacques Lacan o tempo da sessão será algo mais discutido, pois o “um só depois” (Nachträglichkeit), ganha a tradução francesa de après-coup o corte da sessão, a interrupção da sessão ganha o estatuto de interpretação. Deixa de ser somente algo que organiza cronologicamente o tempo da sessão e passa então a ser uma ferramenta de operação.

Em Lacan, o corte antecipado da sessão coloca o sujeito em questão com o que é incontrolável, com o que não se sabe quando virá. O sujeito passa então a produzir diante da iminente interrupção da sessão, que assim como o tempo de vida, passa a ser incontrolável. Assim como o corte em um tempo lógico antecipado visa colocar o sujeito em questão, fazer com que esse possa ver, compreender, mas concluir acontecesomente fora da análise. Um movimento que busca a não fixação, o não preenchimento da falta, mas a abertura do sujeito a algo outro.

Lacan coloca em prática o que já se via em Freud, estabelece uma diferença radical entre o tempo da experiência humana e o tempo da “natureza”. Colocando não somente o analisando em questão com o incontrolável, mas o analista, que agora passa a operar sobre uma nova lógica. Lógica essa com a qual precisa vivenciar em sua análise pessoal, e recorrer aos escritos de Freud e de Lacan para compreender mais sobre a lógica do corte, da escanção. Do tempo da vida.