Clube do Livro: um incentivo para a leitura

 

Contos de Camila:

A minha primeira lembrança de participação de um clube da leitura é bem antiga. Minha mãe me inscreveu em um Clube do livro quando eu tinha 8 ou 9 anos de idade, o nome do clube era Carta & Livro, na minha lembrança alguns colegas e eu inventamos esse nome, mas não sei o quanto disso é real. De qualquer forma convencemos uns pares de pais e o clube – seja lá qual foi seu verdadeiro nome. Funcionava assim: um grupo de pais compravam alguns livros e faziam um “rodízio” dos livros entre os filhos. A única certeza era que a cada mês chegaria em casa um título novo acompanhado de uma cartinha, proveniente da última criança que o havia lido.

Para mim a melhor parte sempre foram as cartinhas, pois, tagarela que sou, sempre gostei de me comunicar. E eu sentia que estava criando uma conexão única com essas crianças – e hoje entendo que esse é o maior bem de um clube do livro.

O segundo clube do livro que eu participei foi na faculdade – pois, como já comentei nesse outro artigo aqui, a adolescência não foi meu melhor momento de leitura, mas acho que nem posso chamá-lo de clube, afinal, seria o clube de uma pessoa só (euzinha mesma). Assim que entrei na faculdade me dei conta que todo mundo ali tinha lido mais do que eu.

Fiquei desapontada de ter “perdido tempo” de leitura, porque eu senti que já deveria ter lido dos clássicos aos contemporâneos, a poesia e a prosa toda. Como assim não tinha lido Kafka? Toda a obra de Machado? Dostoievski? Pessoa? Calvino? Borges? Eu era uma farsa!

Assim, criei comigo mesma um acordo para ler um livro por semana. Nem preciso dizer que o acordo durou menos de 3 semanas: eu não tinha ritmo. Cobrava de mim mesma uma assiduidade na leitura que eu, claramente, não tinha. Desisti e consegui ler apenas o suficiente para acompanhar as discussões teóricas da classe.

Então, numa viagem com a turma da faculdade, eu conheci a Ana. Ela lia MUITO.

Ela disse que o livro para ela não era só mergulhar em histórias para passar o tempo, disse que os personagens “fazem companhia”. Essa frase me tocou muito porque lembrei das cartinhas do meu clube do livro e me dei conta que o incentivo que me faltava para ler era esse: companhia.

Com o tempo fundei, sai e entrei em vários clubes do livro temáticos: clube do livro focado em ler livros com mais de mil páginas, clube do livro de autoras mulheres, autoras feministas… De um tudo.

Atualmente estou em um clube do livro que se formou depois de uma aula sobre escrita da Liliane Prata (o trabalho dela me encanta desde que ela escrevia minha coluna favorita na revista teen da minha época: a revista Capricho). Depois desse curso de um dia eu e os demais participantes decidimos tentar continuar com as discussões sobre literatura e criamos um grupo no whatsapp, que gerou um grupo que conversa a cada 15 dias por duas horas aos sábados.

Com esse novo grupo eu reaprendi o sentido das cartinhas daquele primeiro clube: conexão. A melhor parte desse clube é, portanto, não a leitura dos livros, mas sim a troca com as pessoas.

Por isso queria deixar essa ideia aqui: se você tem dificuldade em ler sozinho, não leia, leia em grupo. Monte um clube de leitura. Como eu falei aí em cima é fácil fazer um, você vai precisar de:

  • Pessoas à gosto.
  • Uma quantia generosa de livros, contos, poesias, peças teatrais, fábulas, romances…
  • Uma pitadinha de tempo.

Pronto! Não tem muito segredo! Além disso vale estabelecer algumas regrinhas como a frequência das reuniões (que nessa época de pandemia é sempre bom lembrar: devem ser virtuais), o tempo de duração de cada discussão e pode ser mais fácil começar se decidirem por um tema particular.

Leitura e Conexão:

Hoje existem diversos clubes que mantém a ideia de conexão por meio de grupos em redes sociais ou até encontros presenciais (como dito anteriormente, em tempos de quarentena a melhor opção para este momento são os clubes online) para discutir os títulos escolhidos.

Geralmente esses grupos leem títulos ligados a alguma temática: o Leia Mulheres, por exemplo, propõe a leitura de obras escritas por mulheres (ou por aqueles que se identificam como mulheres) e existe em várias cidades do país.

Algumas livrarias como Martins Fontes e a Blooks, em São Paulo, também possuem seus próprios clubes do livro e recebem os interessados para discussões em suas unidades.

As bibliotecas também costumam ter grupos de leitura conjunta, o que é sempre um incentivo a mais para visitar esses verdadeiros paraísos <3.

Há também clubes de assinatura como Turistas Literários, que propõe leituras que levem o leitor para outros lugares, a TAG, que traz livros indicados por grandes autores, a Intrínsecos, clube que traz os livros da Editora Intrínseca, a Taba, Leiturinha – esses últimos focados em livros para os pequenos.

Não faltam opções, mas como sempre o importante é ler e ter com quem trocar experiências.

Então fica aqui meu incentivo, ou meu convite, para encorajá-los a criar seus próprios clubes de leitura para não só ler mais, mas conversar mais sobre leitura e descobrir novos mundos – não só nos livros, mas nas experiências de leitura de cada um dos membros do clube.

Boa leitura e boa conexão!

por: Camila Zorlini, Antropóloga*