Jacques Lacan: De uma questão preliminar a todo o tratamento da psicose

A concepção de loucura passou por diversas mudanças, indo de uma perspectiva divina digna de profecias e um contato direto com uma força superior, na Grécia antiga, até uma heresia demoníaca que precisava ser exorcizada na idade média.
Matheus Papp

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Objetivo

O objetivo deste curso é proporcionar os principais conceitos lacanianos encontrados em seu texto De uma questão preliminar a todo o tratamento da psicose, criando uma entrada para a sua clínica. Além disso, discutiremos as mudanças teóricas de um primeiro Lacan para sua segunda clínica, repensando suas formulações do caso Schreber. Proponho criar um diálogo nos encontros que realizaremos, tirando dúvidas quando possível e abrindo caminhos para novas possibilidades de leitura.

Proposta

A loucura sempre se destacou na história. A concepção de loucura passou por diversas mudanças, indo de uma perspectiva divina digna de profecias e um contato direto com uma força superior, na Grécia antiga, até uma heresia demoníaca que precisava ser exorcizada, na Idade Média. A partir do século XVIII, com o início da psiquiatria, as “alienações mentais” têm como destino o cárcere nos manicômios, e se tornam objeto de estudo para serem classificados e agrupados. A fascinação pelo que se passa nos muros de uma instituição psiquiátrica é refletida em caricaturas cinematográficas. Cria-se inúmeros filmes com personagens estereotipados, em celas almofadadas e uma narrativa aterrorizante. Mesmo que de uma forma deturpada, é interessante pensar o que a loucura possui de tão atrativo para o público que consome esse conteúdo enquanto se distancia com sua fantasia de normalidade. É preciso explorar o elemento identificatório que se negará, ao segregar os “outros”, os loucos de “nós”, “normais”. O que os psicóticos evidenciam de nossa própria constituição subjetiva?

No final do século XIX, o advento da psicanálise veio introduzir uma escuta diferencial para as queixas psicossomáticas das histéricas da burguesia vianesa. Com ela, pôde-se delimitar um objeto de estudo para além da fenomenologia dos sintomas visivelmente apresentados: o inconsciente. Ainda que Freud tenha dado destaque para as neuroses em seus escritos, ele mantém aberta a possibilidade de um estudo psicanalítico das estruturas psicóticas. Jacques Lacan, aceitando o desafio, dedica seu terceiro seminário para elaborar uma continuação da teoria freudiana sobre o caso do Presidente Schreber. Um ano depois, em 1957, Lacan divulga seu texto De uma questão preliminar, em que sintetiza os aspectos mais cruciais de seu seminário sobre as psicoses.

A importância desse artigo para a elaboração de uma clínica diferencial das psicoses é indiscutível. Seguindo uma via despatologizante, Lacan dará a devida atenção à importância do delírio para a estabilização do sujeito psicótico. Contrariando a tendência psiquiátrica de medicalizar e encarcerar, de narcotizar para não incomodar, ele incentiva os psicanalistas a valorizar os significantes do discurso psicótico e a escutar o ponto em que a cadeia falha. Assim como na neurose, o inconsciente psicótico possui uma lógica linguística que aponta para o desejo do sujeito; a diferença é que seu inconsciente se encontra a céu aberto (Soler, 2007). Sendo assim, não é nenhuma surpresa o incômodo causado por um paciente psicótico em sujeitos neuróticos que tentam de tudo para recalcar seu próprio inconsciente.

Encarar o infamiliar que a psicose reflete requer entrar em contato com a nossa falta particular. Ainda que tenha teorizado sobre as psicoses nesse texto, Lacan não deixa de reverberar sobre a constituição do sujeito nas outras estruturas. Sua leitura se concentra no caso Schreber, mas os conceitos que dela extrai servirão para o restante de seu ensino.

É tido como senso-comum que o discurso de Lacan não é o mais fácil a ser compreendido e esse texto não é exceção. Com um estilo de ensino dialético, ele não pretende se fazer entender completamente, pois, em suas próprias palavras “Compreensão é evocada apenas como uma relação ideal. Assim que um tenta chegar perto dela, ela se torna, propriamente falando, inalcançável”. Trilhar o caminho lacaniano é propositalmente angustiante por remeter a falta constitutiva de todo o sujeito, sua fala é cheia de trocadilhos, homofonias, sínteses e antíteses, não muito diferente do discurso inconsciente.

A proposta deste curso não é propriamente facilitar sua leitura, mas oferecer uma perspectiva atualizada de seus conceitos. Através de uma leitura assíncrona, dissecarei os axiomas enigmáticos de Lacan e apontarei os principais ensinamentos que podem ser extraídos do texto. Proponho criar um diálogo nos encontros que realizaremos, tirando dúvidas quando possível e abrindo caminhos para novas possibilidades de leitura. Ao explicar os conceitos que Lacan desenvolveu nesse seu período Simbólico, gostaria de criar um paralelo com sua segunda clínica, a pautada no Real.

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