Dia dos Namorados: Afinal o que é o amor?

 

Olá caro leitor,

O dia dos namorados chegou e com ele um turbilhão de afetos, muita gente está agitada, “loucos” para passar o dia com seu/sua amado(a), trocar presentes, comer alguma coisa especial e, claro, “dormir de conchinha” – pode ter crianças nos lendo ou amantes do sagrado, então algum nível de eufemismo cai bem.

Para essas pessoas que grandessíssimo estraga prazer é o COVID-19 e suas implicações.

Por outro lado, há aqueles que estão angustiados, inquietos e questionando sua vida, suas escolhas e relacionamentos passados, afinal, terão que passar o dia dos namorados sozinhos.

Portanto, o isolamento social pode não ser lá tão ruim, afinal estarão sozinhos com milhões de outras pessoas também sozinhas em suas casas.

Talvez aí esteja um grande ensinamento filosófico – nada é, em si mesmo, bom ou ruim, tudo é uma questão de perspectiva, do valor e representação que lhe atribuímos.

E é pela via da filosofia que pretendo bater esse papo com vocês e apresentar dois discursos avessos sobre o amor para pensarmos juntos esse afeto que marca – ou deveria marcar – o dia dos namorados.

Mais especificamente o amor segundo: “O Banquete de Platão“.

Pois bem, para não perder tempo vamos direto ao amor, ops – ao ponto.

O primeiro discurso de amor que quero “brincar” aqui é o do filósofo Aristófanes, mas pode ser encontrado em dezenas de novelas da globo, inclusive, tem uma que carrega sua marca no título, a saber: Alma Gêmea, que foi ao ar em 2006. 

Como você já deve ter se dado conta, o amor nessa narrativa é o encontro com o par perfeito, sob medida, com a metade da laranja, com a tampa da panela… e por ai vai.

Para ilustrar o que seria o tal do amor, Aristófanes, recorre a um mito – vale lembrar que os mitos são uma forma alegórica que os antigos (e alguns contemporâneos) usam para descrever os fenômenos naturais, a subjetividade, os conflitos e os afetos humanos.

No começo o ser humano era um duplo do que conhecemos – 4 braços, 4 pernas, 2 cabeças, 2 corações e, claro, dois órgãos genitais complementares.

Eis uma criatura que se achava sublime, forte, ágil e inteligente, tão astuta e imponente que teve a sagaz ideia de se juntar aos deuses.

Mas os deuses, digamos assim, não curtiram muito a ideia, na verdade, acharam aquilo tudo um grande mal gosto por parte dos humanos e, como próprio dos deuses, resolveram punir esse pequeno e travesso ser.

A punição? Ora, partiram-lhe ao meio, de um fizeram dois e condenaram essa pobre ou impertinente criatura – depende da sua perspectiva – a passar a vida buscando a metade que lhe faltava.

Logo, o amor seria o encontro mágico com esse outro que lhe fora destinado ou privado, que lhe completa e traz sentido a toda vida vivida até o presente momento, justificaria todos os esforços, sofrimentos e decepções até então – lhe traria alívio imediato da existência dolorosa humana.

O cinema está cheio de narrativas sustentadas nesse modelo de amor proposta por Aristófanes, não vou me estender nisso, mas talvez uma bela e divertida alegoria seja a animação Sherek.

De um lado um ogro resmungão e frustrado, do outro uma bela donzela que na calada da noite mostra sua verdadeira face – críticas a um modelo de beleza externa e superficial a parte -, o fato, é que, esse encontro é radical para ambos.

Duas vidas até então infelizes, sem sentido e graça são animadas subitamente após o encontro, claro que há brigas, provocações e desacordos, mas o amor está ali, são duas faces de uma mesma moeda que finalmente se juntaram.

O encontro muda suas vidas e a do reino todo, finalmente tudo termina bem – o clássico: e viveram felizes para sempre…

Essa talvez seja a marca do amor a la metade da laranja, uma vez que se encontre a parte que lhe faltava se vive feliz para sempre.

A bela ironia desse modelo e de suas alegorias é, que exatamente nesse momento de plenitude e satisfação contínua “acaba o filme” – afinal, o que haveria mais a se fazer, a se contar, a se buscar já que se alcançou a tão almejada felicidade plena.

Veja indicação de filmes para assistir no Dia dos Namorados.

Aqui vou virar a mesa do “O Banquete de Platão” e passarei de Aristófanes ao bom velhinho grego, Sócrates – condenado à morte por desvirtuar os jovens gregos, principalmente em relação a crença nos deuses, mas nesse texto: em sua crença no amor e sua plenitude.

Eis o momento que muitos dos leitores satisfeitos e plenos com a data comemorativa e seu par podem abandonar o texto, mas a filosofia deve continuar ainda que com pouca audiência.

Pois bem, diferente desse discurso sobre o amor que defende que o encontro com a metade que falta é o ápice da vida e felicidade humana, Sócrates, como de costume – até que a morte o impedirá de continuar – contesta esse modelo.

Para ele, esse encontro não poderia significar outra coisa senão a morte, o definhar da existência humana, ora, mais porque o amor (nessa narrativa) equivaleria a morte e não a vida e felicidade?

Pelo que disse antes, pois não haveria mais nada a se fazer da vida a não ser passar o resto da vida deitado ao lado de seu ou sua amada em estado vegetativo e de contemplação.

Pelo contrário, o amor ou o desejo – para os gregos essas palavras são equivalentes – não seria o encontro tão esperado com o objeto desejado, mas exatamente o seu oposto.

Isso mesmo, o amor ou desejo seria precisamente a falta do objeto amado, sua ausência ou eterno desencontro e exatamente por faltar, que o sujeito se coloca em movimento, que o amante compõe sua serenata.

É bem simples e lógico essa preposição defendida por Sócrates, é difícil imaginar que um homem ou uma mulher completamente satisfeitos com suas vidas façam qualquer coisa em qualquer sentido que seja, pelo simples fato que se nada lhe falta não há nada a se buscar, não há por que sair da cama.

O Prof. Clóvis de Barros Filho faz uma divertida brincadeira com essa colocação ao dizer:

“Nesse sentido, o único homem que não ama a Juliana Paz é precisamente o seu marido, todos os outros homens a amam, precisamente por não tela e se tivessem, deixariam de amá-la, passariam a amar a Debora Seco”

Para ilustrar esse fenômeno no cotidiano, passando da filosofia para a psicanálise, um bom sintoma contemporâneo da paralisia e mortificação que o encontro com o objeto ideal produz são as toxicomanias.

O toxicômano é aquele que supõe ter encontrado a sua “metade da laranja” – o objeto suposto que lhe faltava e lhe devolverá a plenitude roubada pelos deuses (mito do andrógeno), como esse momento de plenitude passa após algum tempo, ele está sempre em busca de uma nova dose de “amor”, não havendo espaço para qualquer coisa na sua vida que não seja “sua amada”.

o que é o amor

Mas retomemos…

Ora, mas o que Sócrates está querendo dizer? Que o amor não existe? Que somos grandes cretinos infiéis? Que todo casamento, namoro e romance é uma grande piada de mal gosto?

Não, ao menos não necessariamente, depende sempre de cada um e cada relação, pois ai está o “pulo do gato” – é precisamente pelo fato de dois não fazerem um, por não haver completude e união total possível entre amante e amado que é possível que amor e o desejo continue circulando em uma relação.

Há sempre alguma coisa que falta, uma palavra a ser dita, um gesto a ser feito, um presente a ser presentado – há sempre alguma coisa que falta e por faltar se faz desejar.

Mas para aqueles que amor é equivalente a posse do outro, pois o outro é parte de si e sem ele não há mais nada, bem, para esses, o amor pode ser um tipo de morte em vida.

Essas são duas narrativas distintas retiradas do livro “O Banquete de Platão“, mas talvez o amor não seja mais do que isso, um discurso.

“O amor é o que se diz sobre ele: nos filmes, nos livros, nos poemas, nas canções… amamos conforme as narrativas que construímos sobre o amor.”

Christian Dunker

Então, e você? O que me diz sobre o amor?