Escolas Militarizadas

A militarização é uma faca de dois gumes. Para os professores, criou-se uma cultura de medo e auto-censura. Uma escola "sem-partido" força o constante policiamento e embates ideológicos o tempo inteiro. A educação não é, e não deveria ser, neutra — Isso seria negar as desigualdades estruturais.

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Em um contexto da banalidade dos golpes políticos dados por um clero, que se consideram elevados a semideuses, a educação virou uma pauta central para manter a nova geração de trabalhadores sob controle. A corrupção brasileira funciona melhor quando não se questiona a cortina de fumaça escondendo o projeto neoliberal. O ultra-conservadorismo e a militarização se complementam perfeitamente. Regimes autoritários, como do Exército Militar, são uma solução muito utilitária para enraizar uma ideologia limitadora das subjetividades, como a do conservadorismo; além disso, é altamente voltado para o mercado. A estrutura da educação reflete a estrutura do Estado. Sob o regime de um presidente que exalta a “revolução de 64” como algo positivo, e que sonha em ser respeitado pelos militares, não era de ser esperado nada diferente desta tentativa de impor a lógica militar em todas as instâncias públicas. O governo busca, a partir da lógica do inimigo interno, implementar o medo como principal instrumento de dominação das massas. 

No Brasil, temos o Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares em andamento. Tendo, assim, Paulo Freire como uma vaga lembrança a ser completamente apagada, justamente por conta de seu potencial libertador. A concepção freireana de educação bancária descreve perfeitamente o projeto que vigora nas escolas militarizadas, um modo de educar no qual o conteúdo é depositado dos alunos, sem a possibilidade de reflexão ou questionamento acerca do que está sendo estudado. No meio de todo o caos financeiro, com um Estado apoiando a privatização da educação e cortando verbas, as escolas públicas encontram uma luz no fim do túnel ao se vincularem com Militares. É um milagre prometido de recursos a mais, ter um aporte financeiro de qualidade; uma solução para o caos social e para a privação. As dificuldades são impostas no sistema educacional para que a única saída seja a militarização. 

A proposta das escolas militarizadas, como colocada na propaganda do Governo Federal promovendo este projeto, é a de promover escolas mais “limpas”, nas quais o esforço dos alunos é valorizado através da meritocracia. É um projeto higienista, eugenista e que visa o apagamento da subjetividade dos alunos. A ideia de uma escola limpa, sem pichação e desenhos nas carteiras simboliza bem o caráter limitador de qualquer expressão pessoal dos alunos, priorizando a “ordem” sobre todos os outros aspectos. Vale ressaltar, também que este apagamento das subjetividades incide mais intensamente sobre os corpos negros e femininos, cuja adequação é mais trabalhosa por estes não ocuparem o lugar de “modelo” no status quo

O sucateamento do sistema público de educação inviabiliza a implementação de um projeto inclusivo e emancipador, que requer uma gama de professoras ampliada e especializada, a reeducação contínua das equipes escolares e, principalmente, a vontade política. Com as equipes reduzidas, recai sobre a figura do professor toda a responsabilidade pelo comportamento dos alunos. É evidente a sobrecarga que os professores da rede pública vivenciam atualmente. Sem suporte ou valorização da parte do Estado, eles precisam se desdobrar para realizar tudo o que é requisitado deles. Na lógica atual, adequar e controlar os alunos se torna um imperativo que é facilitado pela militarização das escolas, que, além de disponibilizar mais recursos para a organização em questão, impõe um modelo de disciplina no modo de funcionamento das escolas no qual o professor ocupa um lugar de poder autocrático dentro das salas de aula. A cláusula para esse pacto por “disciplina” implica anular completamente os alunos como sujeitos. O valor pago em mais-valia é de que escolas precisam estimular a competição entre os pares; é uma obediência cega, uma supressão total da crítica. Essa normalização da desigualdade precisa ser implantada. Os responsáveis, carregando sua própria pedra na encosta, não conseguem acompanhar a corrente constante de informações novas — uma consequência da globalização e da tecnocracia — que chega aos seus filhos. A militarização da educação, da creche ao ensino médio, é uma suplência para a falência da função paterna vertical na família. A lógica da obediência desvaloriza a profissão educacional, seja ela qual for. Colocar os militares no comando da educação trará consequências sérias à subjetividade; nosso papel é reduzir os danos e lutar contra essa ideologia da educação. O ensino gera dívidas, estudantes que precisam se adequar à farda da escola compram uniformes. O controle dos corpos é inegociável para o conservadorismo, é preciso cortar a expressão de individualidade pela raiz. Ela também é uma lógica contra direitos, de apropriação das instâncias democráticas conflitantes com a ideologia vigente, que são condicionadas para impor regras. Nesta lógica neoliberal meritocrática, o modelo de “educação” adotado pelo governo atual visa identificar quem são os sujeitos capazes de responder a esta disciplina de forma normatizada, e quem são aqueles sujeitos que precisam de uma “domesticação”, de uma colonização dos afetos. São identificados os sujeitos válidos aos olhos do mercado. 

Não podemos confundir escolas militares com as militarizadas. As escolas militarizadas são escolas da rede municipal ou federal que passam a funcionar pela lógica militar, havendo trocas de professores por policiais, bombeiros, ou membros do exército. Os colégios militares são aqueles que servem mais especificamente para a formação de militares e filhos de militares, são colégios construídos desde seus primórdios com a lógica militar, geridos pelo exército. Por serem militares, os colégios recebem um investimento superior às demais escolas da rede pública. O benefício oferecido para se militarizar é o incentivo fiscal de não pagar taxas; como igrejas. Existimos em um contexto propício para a militarização da máquina pública. Essas feridas do governo Bolsonaro custarão para cicatrizar. É uma maneira de atualizar o conservadorismo, fixar a falácia de uma “ideologia de gênero” e manter o Nome-do-Pai hierarquizado. 

Como bons dejetos radioativos dos Estados Unidos, o fenômeno da escolarização domiciliar — desescolarização — tomou uma proporção totalitária da religião vigente, a praga neopentecostal. O “lugar da mulher” precisa ser reforçado desde a infância, a militarização leva consigo reformas para sustentar a ordem patriarcal. Quais as consequências de brasileiros escolarizados em casa? Por si só, a restrição parental segrega as crianças da realidade fora de casa, crianças não tem contato com a diferença e já saem sintonizadas aos princípios autoritários. Esse movimento é direcionado às legislações anti-gênero, os meninos precisam ser azuis e as meninas rosa; a diferença é ameaçadora. Grupos negacionistas também lutam, a onda anti-ciência se espalhou de forma esquizofrênica.

A militarização é uma faca de dois gumes. Para os professores, criou-se uma cultura de medo e auto-censura. Uma escola “sem-partido” força o constante policiamento e embates ideológicos o tempo inteiro. A educação não é, e não deveria ser, neutra — Isso seria negar as desigualdades estruturais. No ultraliberalismo, a militarização é a maneira mais econômica e maximizadora de resultados. Para xerocar um regime da “infância sem pornografia”, evitando a temida sexualidade, é preciso criar uma lógica perversa de poder; precisa-se conter os conflitos de forma autoritária. Não cabe o novo, o outro, o diferente.

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