Necessidades especiais e o Covid-19: Quais são os novos desafios?

 

Sabemos que pessoas com alguma necessidade especial e suas famílias lidam com dificuldades no seu dia-a-dia por diversos motivos: alto custo dos tratamentos, falta de acessibilidade, de conscientização da população, de informação, de estrutura e pouco acesso a direitos básicos.

Atualmente, a pandemia causada pelo SARS-CoV-2 (popularmente conhecido como “novo coronavírus” ou “Covid-19”), mudou a rotina do mundo inteiro.

As pessoas alteraram formas de viver e foram obrigadas a adotarem novos hábitos no seu dia-a-dia para evitar o contágio. Mas como essas mudanças influenciaram nos aspectos biológicos, psicológicos ou sociais de pessoas que lidam com alguma deficiência?

Pensando nisso, pesquisamos algumas entrevistas divulgadas em importantes veículos de comunicação e iremos ressaltar aqui os principais aspectos evidenciados por eles.

As entrevistas foram realizadas com pessoas que possuem alguma necessidade especial ou suas famílias, e contam também com parecer de médicos e de instituições especializadas.

Vamos !

Pessoas que lidam com questões relacionadas a visão ou aspectos motores estão mais atentas a higienização dos recursos que utilizam para se locomover. “Temos que higienizar nossas bengalas, cada vez que a gente volta, porque bengala acaba se tornando um foco de contágio também, já que ela é um instrumento que usa o toque”, disse Fernanda E. (37 anos, professora do Rio de Janeiro) que possui baixa visão.

Apesar de Manoela (ativista de Blumenau/SC) lidar com mobilidade reduzida, tipo de deficiência diferente da de Fernanda, a preocupação é semelhante: “Muitas de nós também precisamos de tecnologia assistiva para viver. Desde cadeiras de rodas, muletas, enfim… e estas precisam estar constantemente higienizadas”.

Um aspecto importante presente na vida de PCDs (Pessoas com Deficiência) é a adaptação de materiais que facilitam o desenvolvimento, a realização de atividades do dia-a-dia e o acesso a informação sobre os cuidados preventivos para o Covid-19.

Fernanda relata que sente falta de materiais de orientação da lavagem de mãos e da confecção de máscaras com a áudio-descrição ou a descrição das imagens para que pessoas com deficiência visual também consigam se prevenir e seguir as recomendações.

Assim como Fernanda, Henri Zylberstajn, que tem um filho com Síndrome de Down, sentiu a necessidade de adaptar a explicação sobre o momento atual para que seu filho pudesse compreender os motivos da mudança em sua rotina. (Saiba mais sobre a Síndrome de Down e o Coronavírus).

Além disso, seu filho estava iniciando o “processo de caminhar”, mas acabou tendo que interromper as sessões de fisioterapia, então Henri construiu o que chama de “engenhoca”: uma espécie de andador confeccionado com tubos de PVC para que ele possa ser estimulado em casa.

Outra adaptação realizada por Henri e sua família foi a de materiais utilizados para exercícios fonoaudiólogos: “[…] a gente usou muito a memória afetiva. Então nossos filhos mais velhos recortaram figuras dos avós, dos tios e dos primos. A gente colocou essas figuras dentro de uma pasta e a gente mostra para o P. perguntando: ‘Quem é?’, né? Porque isso exercita a memória dele e também a fala”.

A redução das sessões de terapias também afetaram pessoas que lidam com questões relacionadas a mobilidade. Ieska Tubaldini Labão (30, profissional de marketing), diagnosticada com Amiotrofia Muscular Espinhal – doença rara degenerativa – e Bronquite Asmática, relata que está sentindo “dores gerais” e “perda de alguns movimentos” devido à falta dos exercícios de fisioterapia.

Esse problema também é enfrentado por Mila Correia (32, consultora), que tem deficiência física causada por Atrofia Muscular tipo 3. Segundo ela, a falta de fisioterapia está acarretando “dores e problemas posturais”.

Já Silvia Sonoda, mãe de uma criança que lida com paralisia cerebral, recebeu orientação da equipe de reabilitação da AACD para realizar os exercícios em casa, já que seu filho realizou uma cirurgia de correção do fêmur recentemente e precisa ser estimulado constantemente: “Nós estamos basicamente fazendo os alongamentos que foram indicados pela fisioterapeuta da AACD. Ela nos passou essas orientações que a gente tá seguindo e eu procuro fazer na medida do possível”.

A autonomia e o aspecto social são fatores que também foram prejudicados por causa do isolamento. Manoela diz que a mobilidade reduzida “muitas vezes dificulta o fato de nós [PCDs] mantermos distância segura [das outras pessoas] que garanta nossa saúde”.

Por outro lado, Fernanda relata que precisa de ajuda de outras pessoas para conseguir sair de casa sozinha quando necessário (por causa da baixa visão) e o distanciamento dificulta a comunidade a poder ajudá-la a atravessar a rua ou chegar a algum lugar.

No entanto, Ieska observa que está “acostumada a ficar uma semana sem sair” e percebe que “para quem não está acostumado [o isolamento social] está sendo muito mais pesado mesmo”.

Essa percepção é similar a de Mila Correia. Segundo ela:

“[…] [o isolamento social] já é uma realidade experienciada por muitas pessoas que tem deficiência. São pessoas que por conta da falta de acessibilidade nas nossas cidades, elas perdem esse direito de ir e vir. Praticamente a gente suspendeu nossa vida social, o nosso lazer. […] Então hoje em dia as pessoas tão tendo que lidar com ansiedade, com a falta de perspectiva, que muitas pessoas com deficiência já lidam”.

O isolamento social obrigou parte da população a trabalhar em casa e ficar mais tempo perto dos seus familiares e pessoas que moram na mesma residência. Segundo Henri, isso ajudou ele e sua esposa a contribuir com o desenvolvimento de seu filho e participar do seu dia-a-dia: “[…]A gente nunca tinha passado tanto tempo em família com ele. Então esse é um fato diferente, né?”.

Por outro lado, esse processo exige mais do aspecto emocional dos pais, conforme evidenciado pela Dra. Michele Miqueleti, Odontologista e mãe de uma criança autista: “[…] fácil não tá, mas a gente tenta né? Tem que ter muito mais paciência e essa é a dica que eu tenho para dar para as mãezinhas”.

Alterar a rotina é ruim pra todo mundo. Tá sendo ruim para os adultos, para os adolescentes e para as crianças. Aquelas que compreendem menos, tipo crianças com Transtorno do Espectro Autista, Deficiências Intelectuais… esse tipo de alteração que tá ocorrendo na vida é muito pior. Então o estresse que todos nós estamos sofrendo, eles estão sofrendo numa intensidade muito maior“.

Neuropediatra Dr. Erasmo Casella.


Segundo uma cartilha da Fundação Oswaldo Cruz chamada “Crianças na Pandemia Covid-19”, a proximidade entre os pais e seus filhos pode vir acompanhada de uma sobrecarga dos familiares ou cuidadores pela rotina do dia-a-dia, trabalho (fora ou dentro de casa) e a própria demanda das crianças devido a atividades de cuidado, lazer e a realização de atividades escolares online.

Devido a esses fatores, a tensão pode ser intensificada. Soma-se a isso, o pouco ou nenhum espaço para os pais ficarem sozinhos, ou realizarem atividades que gostam com tranquilidade.

Vale ressaltar que o isolamento social e afastamento de terapeutas e cuidadores no dia-a-dia fez com que as crianças com deficiência recebessem estímulos diferentes vindo de seus familiares acarretando avanços em seu desenvolvimento: “[…] e às vezes só o fato de você mudar o estímulo, ele ser feito de uma outra maneira por uma outra pessoa também é um fato novo que contribui com o desenvolvimento.”, observou Henri.

Por fim, ficou evidenciado que fatores biológicos, psicológicos e sociais de pessoas com deficiência e seus familiares sofreram alterações devido à pandemia que o mundo está enfrentando.

Os fatores biológicos como problemas posturais, dores gerais e perdas de movimentos foram agravados pela diminuição de terapias, conforme relatado pelas entrevistadas.

Referente aos aspectos sociais, houve proximidade entre os membros das famílias e eles estão acompanhando, observando e identificando novas habilidades a serem ensinadas para a pessoa que lida com alguma deficiência.

No entanto, vale ressaltar que algumas habilidades estão sendo treinadas em poucos ambientes, o que dificulta o aprendizado por parte de pessoas que possuem transtornos do desenvolvimento como Autismo ou Deficiências Intelectuais.

Além disso, o aumento da proximidade social entre as famílias pode acarretar questões emocionais para os pais, já que eles estão precisando realizar os seus trabalhos domésticos, profissionais e dar apoio constante para seus filhos.

“É preciso ter consciência de que os pais não precisam se apropriar das funções dos terapeutas 24 horas por dia, pois suas vidas não precisam se basear exclusivamente na vida da pessoa com deficiência”.

Psicólogo Francisco Costa Nunes.

O fato das pessoas estarem mantendo distanciamento pode representar um problema social para aqueles que precisam de ajuda para realizar tarefas importantes no seu dia-a-dia e esses aspectos podem influenciá-las a evitarem situações em que precisem de apoio e interação social.

Nesse sentido, é importante que a comunidade esteja atenta às necessidades dessas pessoas e toda ajuda deve ser oferecida seguindo todas medidas de prevenção como uso de máscara, distanciamento necessário e higienização das mãos.

Lembrem-se sempre da importância de que todos lidem com o sujeito em si e não com qualquer diagnóstico, pois cada indivíduo possui características únicas, é perfeito da sua maneira e deve ser comparado apenas com ele mesmo. 

Porém, é preciso estar atento a inclusão e qualidade de vida dessas pessoas a qualquer momento, pois elas requerem cuidados e atenção especiais.

“Realizar a inclusão é pertencer o outro, fazê-lo parte do todo dentro de suas necessidades, se adaptar a eles para que seja possível desenvolver sua autonomia e promover sua qualidade de vida”.

Psicóloga Bruna S. Farabulini

Vale ressaltar, que nestas entrevistas não foram realizados nenhum relato sobre pessoas que lidam com a surdez. Portanto deixamos aqui maiores informações sobre o momento atual para este público:

#ProexEmAção divulga o vídeo sobre o novo coronavírus (COVID-19) para a comunidade surda.

Pratique a inclusão!

Links para as matérias referenciadas neste texto:

matéria Globo – G1; matéria AACD; matéria globo play.

Por: Bruna S. Farabulini e Francisco Costa Nunes, Psicólogos*

*CRP (06/156822) e (06/146370)

Francisco Costa Nunes: nosso parceiro e Psicólogo que atende crianças, adultos e adolescentes autistas e suas famílias, e realiza intervenções e palestras em escolas sobre inclusão. Suas intervenções são direcionadas pela ABA e Aceitação e Compromisso.