Psi Indica: O Poço (2020) – filme original Netflix

O Poço é um lançamento original da Netflix que mistura terror, suspense e ficção científica e eu acrescentaria algo de uma distopia, mas aí é por minha conta em risco, assim como também o considero “daqueles filmes para se assistir mais de uma vez”.

Como alguém que “odeia” spoiler vou me esforçar ao máximo para não dar qualquer tipo de informação mais direta do filme, mas me resumir a apresentar algumas problemáticas e reflexões que o compõe.

Trata-se de um desses filmes capazes de despertar variados afetos, mas especialmente o de estranheza e inquietude – ao menos foram os afetos predominantes em mim.

Para os psicanalistas de plantão é um prato cheio por brincar em algumas cenas com o que Freud se dedicou em seu texto “Das Unheimliche” – O Estranho.

Filme O Poço - original Netflix

Sentimento que é despertado ao se deparar com um objeto que nos é aparentemente avesso, repugnante, inconceptível, mas ao mesmo tempo nos releva algo de familiar, algo que diz de nós mesmos e desvela nossos desejos inconscientes.

O filme tem cenas fortes e impactantes, traz à tona o que há de mais primitivo e elementar em nossa existência, ou melhor, em nossa luta pela existência e sobrevivência dentro das condições impostas pela natureza, mas especialmente pelas formações e instituições humanas.

Estas cenas – além de despertar o sentimento de estranheza citado acima – nos faz questionar o limite entre a sobrevivência como imperativo biológico e a perversão como modalidade de desejo e gozo humano.

O Poço é uma crítica aterrorizante e estranha ao sistema capitalista de produção, problematiza em especial a questão da distribuição da riqueza e a luta de classe, evoca um paralelo entre luxúria e miséria e em como ambas são interdependentes dentro de uma sociedade capitalista.

Filme O Poço - original Netflix

Mas para os “marxistas de plantão” que se animaram com a possibilidade de assistir uma rebuscada crítica ao sistema econômico dominante e defesa do seu modelo antagônico, não se enganem.

Aqui está a magia da problematização política/social do filme (na minha opinião, claro) e que me remete ao livro: “A Revolução dos Bichos”, escrita por George Orwell.

O filme começa evidenciado a luta e rivalidade inerente a esse modelo econômico, como ele nos subjetiva e nos torna estranhos a nós mesmo – ao menos numa visão mais romântica de uma suposta “natureza humana” boa e altruísta.

 “O homem nasce bom, e a sociedade o corrompe.”

Rousseau

Ao mesmo tempo ele nos implica dentro desse sistema, mostra que somos coniventes, que ele não pode existir sem nossa colaboração e adesão diária – a quem se interessar pelo assunto eu recomendo a leitura do livro: “O Discurso da Servidão Voluntária”, do autor Étienne de La Boétie.

Uma vez que deixa explícita toda a desigualdade e inconsistência do sistema capitalista ele se lança a solução recorrente – uma formação social voltada para os princípios do comunismo.

Mas a coisa é sempre mais bonita na teoria do que na prática (daí a referência ao livro Revolução dos Bichos) e tal como filme, aqui eu lhes deixo, não com uma conclusão, mas com uma abertura.

O final é simbólico e ambíguo e cada uma deve por si só produzir algum sentido.